23.2.09

Verdes Anos_fotos







"Entidade quase mítica deste novo momento da filmografia portuguesa, o filme «Verdes Anos» de Paulo Rocha define um descentramento do espaço urbano da capital à data de 1963, ao mesmo tempo que empreende uma topografia do inefável sistema de forças que condiciona quem lá vive.
João Benard da Costa não esquece as panorâmicas iniciais que a película revela: «Lisboa é virada do avesso, olhada das traseiras, fica sem centro nem cerne, num amontoado de terrenos baldios que se misturam com a arquitectura de caixotes que a começavam a invadir, da Avenida dos Estados Unidos à do Aeroporto, da Cidade Universitária ao Hospital de Santa Maria».
A espessura da urbe é outra, evidenciada por uma nova dramaturgia dos espaços habitados e desabitados. Lisboa é uma cidade de vértices, de enganos, propensa ao conflito e ao desvario, mercê da massa heterogénea que a constitui. Em Lisboa só vinga quem tem olho vivo, lembra constantemente o filme.
A histórica banda sonora com música de Carlos Paredes ajuda a compor o perfil do pulsar social da capital nos anos 60, prenhe de conflitos humanos.
A objectiva centra-se em Júlio, um provinciano quase analfabeto e sem perspectivas que migra para Lisboa, onde se apaixona por Ilda e onde é conduzido à perdição. A tragédia em que culmina o filme, com a morte de Ilda, é o clímax da desconfiguração, da ruptura, da frustração, de um trajecto anómico e perturbador que é a vida numa cidade em construção, ainda com rasgos de ruralidade e sem capacidade para acolher aqueles que a decidem habitar.
António Loja Neves, cine-clubista, lê em «Verdes Anos» um manifesto, o «paradigma da Lisboa enquanto cidade que se distrai do rio e omite o passado glorioso, construída por milhares de pessoas num ápice que, como Júlio (sapateiro) e Ilda (empregada doméstica numa casa da burguesia urbana) transportam as raízes rurais no seu assédio à vida citadina»."

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